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Um grito por Araceli

  Por Michelle Ferraz

araceliEra dia de Mobilização Contra a Pedofilia* em BH. Saí cedinho de casa em direção à Praça Sete, onde aconteceria a concentração. A missão era sacudir tudo quanto é gente. Fazer as pessoas entenderem que é preciso gritar pelas crianças, gritar pela Araceli.

A Araceli? É o símbolo do combate à exploração sexual de crianças e adolescentes, luta que ficou eternizada no dia 18 de maio. Isso porque, há exatos 40 anos, em 1973, ela foi para a escola e não voltou mais. A menina, que tinha apenas 9 anos, foi drogada, espancada, estuprada e morta. O corpo, queimado por ácido, só foi localizado seis dias depois do desaparecimento, nos fundos de um hospital em Vitória, no Espírito Santo.

O crime prescreveu e nenhum dos condenados foi preso. A morte da menina ainda causa revolta e a data reafirma a responsabilidade da sociedade brasileira de garantir proteção a todas as suas “Aracelis”. E é por causa de cada uma delas que estávamos reunidos naquela mobilização, numa manhã nublada de outono.

Minha tarefa era distribuir panfletos que explicavam a triste origem daquilo que a data representa. Todos que passavam por ali queriam saber quem foi a Araceli e elogiavam a mobilização. Todos, menos aquela senhora de blusa roxa, a única, entre centenas, que não quis me ouvir. “Senhora, você conhece esta garotinha?”, perguntei, apontando para a foto. “NÃO QUERO SABER DE NADA! FUI ESTUPRADA SEMANA PASSADA!”, ela respondeu num grito.

Fiquei sem reação, o choro parou na garganta. A única coisa que consegui dizer depois daquele grito foi que, ali na praça, havia profissionais que poderiam ajudá-la, mas ela disse que aquilo “não era da conta de ninguém”. E, antes de me dar as costas, me mandou ficar esperta.

Eu, que já estava sensibilizada por conta de toda a mobilização, precisei respirar fundo e enxugar a única lágrima teimosa que não consegui segurar [mais tarde, quando cheguei em casa, as outras se libertaram e rolaram feito cachoeira]. Me senti impotente.

Aquela situação me fez pensar: “o que podemos fazer para proteger, DE VERDADE, as nossas ‘Aracelis’, meninas e meninos, pequenos e grandes que são violentados todos os dias?”. Se aquela senhora achava que não era “da conta de ninguém”, o que esperar de uma criança amedrontada, que sequer tem a chance de se esconder, porque o abusador é o próprio pai? Que ela resolva abrir a boca e contar pra mãe? Que ela peça a ajuda da polícia? Não é o que acontece na maioria dos casos.

Entendi que, infelizmente, a saída parece estar nos olhos e na boca das pessoas crescidas. E digo “infelizmente”, porque, apesar de parecer óbvio, ainda tem muita gente grande que se faz de cega e muda, que ignora a suspeita, que dá as costas ao choro da criança que mora na casa ao lado.

Ei, a libertação daquela criança abusada está nos seus olhos e na sua boca! Nos olhos, quando você desenvolve a sensibilidade de “enxergar os gritos” que as ‘Aracelis’ emitem silenciosamente todos os dias. Na boca, quando você toma a atitude de denunciar.

Parentes, vizinhos, professores e o mundo inteiro precisam não só olhar, mas VER as crianças, interpretar os sinais que elas deixam e falar por elas. Porque elas ainda não sabem acusar.
Esse mesmo mundo inteiro precisa inspirar confiança a essas crianças, pequenas e crescidas, porque elas foram estupradas “semana passada” e não querem comentar o assunto. Têm medo de apontar o culpado e vivem suas revoltas, solitárias.

Em caso de qualquer tipo de suspeita, QUAL-QUER, é importante denunciar. E, pelo Disque 100, a gente consegue esmagar a impunidade e evitar que a Araceli morra mais uma vez.

 

* A Mobilização Contra a Pedofilia em Belo Horizonte(MG) foi uma iniciativa dos grupos Altruir e Inconformados,
e reuniu dezenas de voluntários neste sábado (18), na Praça Sete.

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Jornalista Michelle FerrazMichelle Ferraz é jornalista, editora de web na REDE SUPER
michelle.ferraz@redesuper.com.br
@michelleferraz_

 

 

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