Prosa

Por Indhiara Souza

Prosa

Talvez, mais tarde, eu faça um chá, uma pausa, uma respiração profunda para o descanso desse assunto que vez ou outra ronda nossas conversas. Já me desgastaram demais as dúvidas sobre o que será feito das pessoas como eu: absolutamente comuns. Dessas que não chamam atenção pela beleza ou pela genialidade, sucesso ou fracasso absoluto. Dessas que não comovem pelos excessos de erros ou de acertos. Gente comum, sabe? Gente multidão.

Talvez amanhã cedo eu faça um café, um grito, uma corrida para chacoalhar a mente, derrubar no chão esses pensamentos velhos que querem me prender na desatenção. Eu me distraio com tanta facilidade, amor. E me esqueço com tanta frequência de tudo o que preciso lembrar, gravar, grudar na testa.

E não vou mentir dessa vez, porque, enquanto não é mais tarde nem tão cedo, as luzes da cidade se acendem e o brilho delas é tão bonito que quase me esqueço de que estamos conversando. Eu te conto a minha vida, do jeito que sei contar. Você me conta a minha vida também, do jeito que ela é de verdade. O jeito que sei contar é tão turvo e sem gosto quanto a vida que morro de medo de ter e por isso é que sempre acho que você prefere extremos de luz, extremos de gosto, extremos de temperatura. Por isso não consigo enxergar as coisas bonitas que você pensa, diz e vê quando me olha.

Eu queria saber organizar melhor as minhas ideias, amor. Interrompo as frases no meio e as preces no início porque tanta coisa lá fora é mais atraente que a nossa conversa e temo nunca chegar a conclusão nenhuma sobre o que você tenta me explicar enquanto conto os postes acesos na rua. Mas eu não quero demorar a entender que tudo de mediano que vivi até pouco tempo atrás foi o extremo de mediocridade que você já me disse para evitar.

Na verdade, amor, o médio me assusta, porque ele passa batido na história da gente. O médio é cômodo, aceitável, nem sempre quer mudanças. Na verdade, amor, eu cansei um pouco da minha história. Não me leve a mal, é certo que você a reescreveu com os dedos e agora ela é bonita que só, mas a minha vista ‘tá tão embaçada que nada tem me surpreendido ultimamente e eu cansei de falar de mim. E não quero demorar a entender que você fez de novo os meus dias para que eles façam parte dos seus e que tudo agora diz respeito a você.

Então eu proponho uma mudança no rumo dessa prosa: me conte a sua vida. Os seus extremos e equilíbrios, a sua nitidez. Me conte a sua vida, porque eu quero aquele momento em que a intimidade faz a gente ser parecido. E ser parecido faz a gente ser igual. E ser igual faz a gente não saber quem é quem. E não saber quem é quem faz os outros acharem que somos um só, e é exatamente esse ponto inteiro que ando procurando.

Talvez agora seja o momento de eu não ser mais o assunto e quero ouvir você até que sejamos mais que amor e amigos. Mais que Criador e criatura.

Pode falar e ensinar e explicar e eu vou ouvir e aprender e refletir a sua luz, muito mais bonita que a lá de fora. Então vamos mudar de assunto logo? Eu fecho a janela, a gente volta a conversar. Antes do sol nascer, quero a sua claridade deixando extraordinária a vida que sempre achei ser tão comum.

“Pois em ti está a fonte da vida; graças à tua luz, vemos a luz”.
(Salmos 36.9)

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Indhiara SouzaIndhiara Souza é jornalista e produtora na REDE SUPER
indhiara.souza@redesuper.com.br
@indh


3 Comentários

  1. Welbert Emery

    Quando paro e leio suas palavras, me sinto em um grande palco, recitando para uma grande platéia seus versos que na verdade são palavras que definem o que sentimos e muitas vezes não expressamos. Deus seja louvado sempre através de você menina poeta. Beijos

  2. Livia Patricia

    Estas palavras que eu acabei de ler são realmente o quê?! É mesmo uma simples prosa? Eu penso e tenho quase certeza que não! Eu me vi conversando com o PAPAI neste momento. Parabéns! Que o Senhor DEUS continue te usando e te abençoando.
    PS.: Se meu sonho fosse um dia ser jornalista, quando eu crescesse, eu gostaria de ser igual a você!
    Fica na PAZ que excede TODO entendimento!

  3. CRISTIANE QUIRINO DOS SANTOS

    ao ler este texto tive a sensação de que alguém lera todos os meus pensamentos e sentira as batidas do meu coração.não sou importante nem quero ser.em meu coração só ha o desejo de ter o meu Pai querido ao meu lado. PROZIAR com ele, ter intimidade sabe? mas o pecado tem me afastado dEle e isso me doi muito.sei qeu ele me ama como eu sou mas eu queria que Ele me amasse pelo que ele queria que eu fosse (se é que dá pra me entender)
    DEUS seja com vocês que a cada dia entregam suas vidas por amor a Ele!

 

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