Pais de pó

– Por Michelle Ferraz

Dia dos pais

Meu grande Pai, aquele que sabe tudo, está em todos os lugares e fez todas as coisas, me presenteou, generosamente, com nada mais que dois pais de pó. Homens que me trouxeram muita alegria, mas que também falharam algumas vezes.

E quem é que nunca falhou? Só mesmo o grande Pai, aquele que sabe das coisas que a gente guarda lá dentro do peito, é capaz de nunca errar. E é dEle que vem a força para perdoar e entender que ninguém é perfeito.

É graças ao meu grande Pai que eu entendi que os pais de pó não passam de pó: são humanos e erram. Assim como eu. Assim como todos nós, filhos imperfeitos e complicados.

O pai prodígio

Do primeiro pai de pó, o que me produziu há 24 anos em algum ato de amor, guardo poucas lembranças. Poucas e marcantes. Ele se chamava Edson e foi dele que herdei o sobrenome “Ferraz”, do qual me sinto tão orgulhosa. Minha mãe, dona Sandra, conta que ele era muito inteligente, característica confirmada por uma tia que chora sempre que fita os olhos em mim (ela diz que sou “a cara” do meu pai). A tia diz que ele era superdotado: aos 3 anos, já sabia ler, escrever e tocar violão. Coisa de menino prodígio.

Não me lembro de tê-lo ouvido cantar. Mas me lembro de um sorriso de meia boca, de cabelos impressionantemente lisos e negros (com os quais a genética não quis me presentear), de um bigode marcante e de sobrancelhas tão grossas que formavam um único risco de pelos sobre os olhos. Carrego uma última lembrança dele vivo, em pé na porta da casa da vovó Ana (mãe dele), vestido com uma camisa azul claro. Não sei exatamente por que ele estava lá e não na minha casa, comigo e com minha mãe. E ainda não entendo o porquê, mas, naquele dia, eu não quis chamá-lo de pai. Tentei, mas a palavra não saiu. Talvez fosse coisa de premonição e eu já estivesse chateada com ele pela grande tristeza que me causaria.

Daquele dia em diante, não me lembro de muita coisa (afinal, eu tinha apenas 3 anos). Mas me lembro do dia em que minha mãe disse que o papai estava “dodói” e que iríamos vê-lo. Imaginei que ele deveria estar horrível, com muitas espinhas purulentas no rosto. Mas, se minha memória não mente, foi o dia em que o vi pela última vez: deitado, de olhos fechados, imóvel, sem respiração, corpo coberto por flores amarelas, nariz e ouvidos tapados por pedaços de algodão.

Definitivamente sem entender o que significava aquilo, eu quis subir naquela caixa de madeira para acordá-lo, mas fui impedida. E algumas horas depois, lá estavam aqueles homens desconhecidos, colocando meu pai em um buraco e jogando terra por cima. Alguém me carregava pra longe dali enquanto eu perguntava: “por que estão jogando meu pai naquele buraco?”. “Não olhe pra lá, amorzinho”, é a única resposta da qual me lembro.

Perguntei à minha mãe, por várias vezes, o que havia acontecido. “Por que você não me conta, mãe?”, insistia eu. “Não vai te edificar”, era a resposta dela. Mas o tempo passou, eu cresci e a verdade apareceu. Descoberta que me causou muita dor: meu pai, aquele garotinho prodígio que cresceu e se tornou um homem lindo e inteligente, havia tirado a própria vida. Exatamente: su-i-cí-dio. Uma solução venenosa que o levou embora pra sempre e uma carta com um pedido de perdão em que ele jurava que aquilo não era culpa de ninguém.

Cerca de 20 anos se passaram desde aquele dia e, ainda hoje, admito que não consigo entender. Já cheguei a pensar que a culpa era minha. Poxa, não era pra ele ter ido embora assim… Eu tinha só 3 anos e ainda não sabia ler, nem escrever, nem tocar violão! Ele deveria ter me ensinado essas coisas antes de ser tão egoísta. Mas tudo bem. Agora não dói tanto quanto já doeu. Afinal, ele era um pai de pó. E, hoje, eu entendo que pais de pó erram demais, mesmo quando tentam acertar. Saudade, pai.

“Há somente um Pai que nunca erra. Ele jamais me abandona,
mesmo quando caminho para longe dEle.”

O pai sorridente

Meu segundo pai de pó atende pelo diminutivo “Serginho”, o homem mais sorridente que já conheci até hoje. Não sei se o mais feliz do mundo, mas, sem dúvida, uma pessoa contente.

Ele chegou para ocupar o lugar do homem que me produziu. Se não me engano, cerca de um ano após o suicídio. Era apaixonado pela minha mãe, mesmo sendo mais baixo que ela, e decidiu que me assumiria como filha dele. Mais ou menos assim: eu seria a filha do Serginho, mas o Serginho não seria o meu pai. Acordo acertado em uma conversa muito séria entre nós dois em que eu, do alto dos meus 4 anos, disse que ele até poderia ficar no lugar do meu pai, mas que eu não o chamaria de pai. Simples assim. Pelo menos é o que ele conta (eu, realmente, não me lembro dessa conversa).

O fato de eu não chamar o Serginho de pai, entretanto, não diminuía em nada o meu afeto e consideração por ele. Não foi difícil aceitá-lo. Eu, definitivamente, amava aquele homem alegre que, sem demora, tornou-se meu amigo. Um dos melhores amigos. Um verdadeiro pai, mesmo com a falta de título.

Foi o Serginho quem me educou. Cresci sob os cuidados dele e foi pra ele que falei sobre o meu primeiro beijo (minha mãe me mataria). Aliás, contei muitos segredos pra ele, muitos mesmo. E me decepcionei quando soube que ele fofocava tudo pra minha mãe. Aliás, me decepcionei por outras coisas também. Meu segundo pai de pó pisou na bola. Vacilou muitas vezes e me fez chorar. E uma coisa séria entre a gente me fez parar de falar com ele por cerca de dois anos… Dois longos e arrastados anos, até o dia em que olhei para os olhos dele e tudo o que tive foi uma vontade imensa de chorar… É que cabelos brancos e rugas haviam brotado na aparência dele e eu não percebi. Dois anos sem olho no olho, sem vê-lo envelhecer, sem a amizade dele.

Mas sabe de uma coisa? Eu aprendi que a tristeza é coisa passageira, e que as decepções não devem, em hipótese alguma, se sobrepor ao amor. Porque, entre fé, esperança e amor, o maior de todos é o amor (não é isso que Paulo ensina em Coríntios?). E eu não posso negar que, apesar das decepções recíprocas (sei que eu também já o magoei), eu amo o Serginho, por mais que não tenha coragem o suficiente pra dizer isso a ele.

Nossa relação mudou muito desde que ele entrou na minha vida, inevitavelmente. Mas o Serginho é meu pai querido. O homem que, com uma calma que beira a passividade, me ensinou a sorrir, a viver com menos preocupações, a complicar menos, a me importar menos com coisas bobas pelas quais não vale a pena chorar. Talvez ele nem saiba, mas aprendi tudo isso, mesmo que não consiga colocar tudo em prática.

Nossos dissabores? Já não doem tanto quanto já doeram. Afinal, ele é um pai de pó. E eu sei que pais de pó erram demais, mesmo quando tentam acertar. Aliás, filhos de pó também erram. E é por isso que eu reconheço, com alguma dificuldade, que eu também pisei na bola e preciso melhorar. Perdão, pai.

“Sei que só há um Pai capaz de acertar sempre. E sei que esse Pai me ama incondicionalmente,
mesmo nas minhas piores falhas.”

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Jornalista Michelle FerrazMichelle Ferraz é jornalista, editora de web da REDE SUPER
michelle.ferraz@redesuper.com.br
@michelleferraz_


8 Comentários

  1. Ane Carolina

    Linda mensagem Michelle, esquecemos mesmo que nossos pais também são seres humanos, achamos que eles devem ser perfeitos, porém não e simples assim, ah só um pai perfeito não é mesmo?.

    Abços

  2. Adriana Ferraz dos Santos

    PUXA!!!…Como vc escreve bem Michelle…pude com seu talento com as palavras, apesar de nao conhece-la…viver toda a sua história…é lindo como vc reconhece aquilo que seus pais deixaram pra vc…vc é uma pessoa de sorte!!!Deus a abençõe!!!

  3. Natália Loredo Felipe

    Nossa minha querida que lindo sua história, o mais interessante é que você soube honrar os seus dois pais, é isso aí, Parabéns!

  4. Cristiane Nogueira

    Michele, poderia sua mensagem ter servido de testemunho no culto Mulheres Diante do Trono,cujo tema foi restaurando a identidade com o Pai Celestial.Amei, parabéns!!!

  5. Sergio Maurilio

    Mi,
    Foi o maior e o mais importante de todos os presentes ou dádivas que em vida alguém me tenha dado. Você não imagina o impacto que tais palavras me deram. Fui curado!
    Te amo!!!
    Seu sempre pai
    Serginho.

  6. Joelma

    Que lindo texto, chorei…..

  7. AnaPaula

    Simplesmente lindo,que Deus continue te abençoando e te usando grandemente na tarefa de escrever,realmente somos falhos e o único que não erra é Deus.

  8. Weslley

    Simplesmente lindo!!! Me fez refletir…

 

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