Madrugada

Por Indhiara Souza

Eu tinha dez anos e um universo fluorescente no teto. Algum adulto me deu de aniversário uns adesivos que me faziam viajar, todas as noites. As estrelas, saturno, a lua, o brilho que ficava evidente com a escuridão do quarto depois do beijo de boa noite dos pais. Então eles fechavam a porta e, enquanto o sono não vinha, eu esticava os braços pra ligar os pontos em desenhos diferentes até que toda a galáxia se apagasse.
Então o universo dormia em paz, eu tinha pesadelos.

Eu tenho pesadelos desde quando consigo me lembrar – e minha memória é muito boa, você sabe. Um lobo mau me atacando com tomates açucarados, o medo da recuperação de matemática, a professora de matemática dizendo pros meus pais que eu era péssima, a morte da minha amiga, o sequestro dos meus pais, o abandono da minha avó, o desaparecimento do meu irmão, o medo do desemprego, uma doença incurável, o estupro, o assalto, o assassinato, filhos fora da hora, vários casamentos frustrados, a minha morte, o fim do mundo, o inferno. Esses e outros que coleciono envergonham a quantidade de bons sonhos que tive nessa pequenina vida de 24 anos e cinco cabelos brancos, contados por você.

Eu queria me lembrar de todos os sonhos e depois escolher quais quero esquecer – exatamente como quero fazer com algumas lembranças, mas o que eu não quero nunca apagar da memória é aquela tarde em que eu passeava na praia. E só de ser tarde, de ser dia, de ser claro, já é bom sinal, porque, como você observa, os meus sonhos são quase invariavelmente escuros como o quarto.

Era uma tarde boa, em que a caminhada na areia nada tinha a ver com os pesadelos que me atormentam a vida inteira. Alguém atrás de mim caminhava em silêncio e lentamente, enquanto eu dava risadas da cena a seguir.

Um homem segurava uma criança. Levantava a criança, soltava a criança, pegava de novo. A criança, um menino que não sabia nadar, ria ao subir, gritava ao cair, se agarrava ao pescoço do homem de novo. O menino, coitado, queria aprender a nadar, mas tinha medo do mar. A onda vinha, ele engolia água salgada, dava uns gritinhos apavorados. O homem gargalhava e começava tudo de novo.

Então eu ri, observando aquela cena se repetir algumas vezes e, na minha total falta de habilidade com qualquer ser humano menor de 18 anos, resmunguei: ‘Mas que menino burro. Tanto desespero, e ele nem vai morrer’.

Nessa hora, o silêncio que caminhava atrás de mim se transformou em uma voz pertinho dos meus ouvidos: ‘Ele não se deu conta ainda de que está no colo do pai. Nada de ruim vai acontecer’.

Acordei. Entendi.
E preferi não ter acordado, pra observar pai e filho por horas até o entendimento virar convicção de que eu não preciso temer qualquer má notícia e que é verdade o que o seu amigo disse sobre não ter medo de vales, sombras e morte.

Acordei, agradeci.
Agradeci certa de que não há como me esconder de alguém que conhece até meus pesadelos, antes mesmo que o sono chegue e, embora eu tenha muitas noites ruins, os sonhos bons, como esse, vão me acompanhar o resto da vida.

Agradeci porque ainda que eu beba um pouco de água do mar, estou aprendendo a nadar.

Acordei, era madrugada, eu tinha 24 anos, nenhum adesivo no teto.

Sorri, dormi de novo.

 

“Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados.
Portanto, não tenham medo; vocês valem mais do que muitos pardais!”
Mateus 10.30

“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte,
não temeria mal algum, porque tu estás comigo”.
Salmos 23.4

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Indhiara SouzaIndhiara Souza é jornalista, produtora e repórter do programa SEMPRE FELIZ
indhiara.souza@redesuper.com.br
@indh

 


 

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