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É tristeza, por enquanto

Por Indhiara Souza

É tristeza, por enquanto - Indhiara SouzaNão fosse a sua alegria, renascendo todos os dias, eu não conseguiria nem me arrastar da cama para fingir viver. É que eu me lembro bem de quando o despertador tocava e eu tinha vontade de chorar, por ter que suportar a sobrevivência. E fico assustada porque às vezes, ainda, a tristeza vem dizer bom dia e eu preciso chutá-la da minha porta. E procuro as minhas parcelas de culpa em deixar que ela apareça, assim, de repente, querendo passar um tempo. Não, não foi preciso viver desgraçadamente pra abrir um buraco no peito; bastou dizer à tristeza bom dia também. Bastou reafirmar a fraqueza na frente do espelho e mendigar qualquer migalha de alegria passageira.

Eu também te amo, mas estou amarga, preciso dizer. Agora que aprendi o valor da sinceridade nas nossas conversas, eu preciso dizer que há tanta amargura por aqui que eu tenho vontade de nem ligar o despertador, pra não ter que chorar pela manhã. Eu sou tão inconstante, também preciso dizer. E o sorriso de agora se transforma na raiva de mais tarde porque todas as coisas planejadas deram errado. Porque eu ainda não consegui deixar todos os planos nas mãos de quem cuida bem melhor deles.

Agora eu tenho que voltar, catando os sonhos pela estrada. Eu os deixei cair no momento em que me ocupei demais em tirar as pedras do caminho, bagunçando as nossas funções: você fica com o trabalho pesado (seja ele qual for) e segura o tempo que ainda está por vir e me dá, à medida que posso suportar, algum plano bonito de vida. Mas é que na ânsia de chegar logo ao destino, eu me esqueci de que importa muito a maneira como viajamos e abandonei as pequenas coisas que eu conseguia carregar. Essas que fazem a nossa existência ter um sabor tão melhor que esse amargor de ultimamente. Um livro, uma viagem, um amigo, uma tarde de inverno. Uma mochila nas costas e o mundo pela frente. Papel e caneta infinitos pra registrar nossos diálogos mais importantes. Só que agora ‘tá tudo tão mecânico e triste e cinza…

Mas eu quero a leveza de te ter por perto, quando o mundo desabar na minha cabeça e a tristeza destruir a casa inteira. Volte comigo, pra pegar o que ficou lá atrás enquanto eu me arrependo de querer de vez em quando o caminho que já está pronto, largo e fácil. Volte comigo, lá na parte em que eu me esqueci de perseguir a alegria, como se ela fosse mesmo algo natural e parte da vida, porque só agora eu sei que não é tão fácil assim sorrir. Só agora eu consigo ver que abandonei as coisas fáceis quando peguei a estrada estreita, abri a porta apertada e subi na cruz. Mas há felicidade nessa dificuldade toda. Eu sei que há.

Enquanto os sorrisos não aparecem, enquanto não pego de volta os sonhos, um a um, ainda que eu chore e fique como agora, sem nenhuma motivação, vou me lembrar também da sua alegria e ser forte. E ler de novo e de novo e de novo aquele bilhete que você deixou dizendo que a minha força vem quando você sorri.

“Imaginem-me com os dentes cerrados,
perseguindo a alegria – completamente armado,
pois essa busca é altamente perigosa”.

Flannery O’connor

“Não se entristeçam, porque a alegria do Senhor os fortalecerá”.

Neemias 8.10

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Indhiara SouzaIndhiara Souza é jornalista e produtora na REDE SUPER
indhiara.souza@redesuper.com.br
@indh

 

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