Balanço do Carnaval: a conta que nunca fecha

Por Giovanna de Paula*

carnaval

(Foto: Pixabay)

Muita alegria, cores e a animação típica do povo brasileiro. Esses podem ser os ingredientes vendidos pela mídia quando o assunto é Carnaval. Segundo a última pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), só neste ano, o grande evento de fevereiro deve movimentar quase R$ 6 bilhões no país. Não é de se estranhar que o incentivo para que todos caiam na folia seja sempre forte.

No entanto, é intrigante observar como certos fatores passam despercebidos no cálculo dessa, até então, rentável festa. Uma das grandezas encobertas são os prejuízos da prostituição e da exploração sexual, que durante a festividade no Brasil alcançam o ápice.

As associações de prostitutas das principais capitais do país confirmam a expectativa de um aumento de 40% na procura pelo serviço nesse período. E quem atua no mercado de exploração sexual sabe que a data é promissora. Daí talvez venha a base que sustenta os vergonhosos primeiros lugares do Brasil no relatório de exploração sexual infantojuvenil elaborado pelas Nações Unidas. Somos o primeiro lugar na América Latina e o segundo no mundo.

Os prejuízos dessas práticas deveriam entrar subtraindo no cálculo do balanço final do Carnaval. Talvez não constem porque os valores são difíceis de mensurar. Afinal, quanto custa a infância da criança explorada? Qual o valor da saúde tirada por uma DST? E quem sabe afirmar quanto valem os bebês que nem chegam a nascer? Isso porque não entrei no mérito dos acidentes, da alta do consumo de drogas e bebidas alcoólicas. Nem quis acender a discussão do número de filhos que não voltam para casa, da quantidade de casais que se separam e dos traumas que ficam das gravidezes indesejadas.

Basta um pouco de reflexão para perceber que os quase R$ 6 bilhões de rentabilidade previstos para o Carnaval são facilmente engolidos pelos danos que ele traz. Mas quem quer saber se o balanço fecha ou não, não é verdade? Contanto que os grandes empresários lucrem, que os famosos estampem capas de revistas se esbaldando nas avenidas e que a imagem do Brasil circule o mundo como país alegre, festivo e de mulheres sensuais, para que finalizar a conta, não é mesmo?

É famosa a máxima no Brasil de que as atividades no país só começam, de fato, depois que todos dão o “adeus à carne”, como sugere a etimologia da palavra Carnaval. Aí talvez esteja uma das explicações do porquê de os brasileiros enfrentarem crises atrás de crises: sem perceber, começam todo ano com um déficit moral e estrutural extremamente grandes.

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Giovanna de PaulaGiovanna de Paula é jornalista, produtora na Rede Super
giovanna.paula@redesuper.com.br

 


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