A Páscoa: desvendando o original

Por Daniel Lopez

“Chamou, pois, Moisés todos os anciãos de Israel, e disse-lhes: ide e tomai-vos cordeiros segundo as vossas famílias, e imolai a páscoa”. (Êxodo 12.21)

Páscoa

A Páscoa é a mais famosa das festas judaicas e também uma das mais importantes do calendário cristão. É evidente que a celebração judaica sofreu transformações ao longo do tempo, e a festa cristã em muito se distingue de sua versão judaica. Analisando texto hebraico, faremos uma viagem pela cultura e pela língua por meio da qual este evento foi instituído e perpetuado.

A palavra hebraica para páscoa é “pesach”, que significa “isenção”. Esse termo traz à memória, por exemplo, a “isenção fiscal”, quando uma pessoa é liberada de pagar um tributo. Em Romanos 6.23, lemos que “o salário do pecado é a morte”, ou seja, todos que pecaram deveriam morrer. Assim, os judeus que se encontravam no Egito também eram réus de morte e alvos do ataque do anjo da morte. Todavia, o mesmo versículo 23 de Romanos 6 nos dá esperança: “mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor”. João Batista, ao ver Jesus, anunciou que aquele era o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (João 1.29). Aqueles que no Egito tomaram posse do sangue do cordeiro de Deus tornaram-se “isentos” de pagar o preço do pecado com a morte de seus filhos primogênitos.

A palavra “pesach” vem de “pasach”, que significa “pular”, ou “passar por cima”, que é a tradução literal da palavra inglesa para páscoa, “passover”. O anjo da morte “passou adiante” das casas cujos umbrais das portas foram sinalizados com o sangue do cordeiro. Esse é o mesmo livramento que nos foi concedido por Cristo, que nos livrou da morte e nos deu vida, e vida em abundância (João 10.10).

O interessante é que a palavra “pesach” está diretamente relacionada à palavra “pisseach”, que significa “manco” ou “coxo”, pois remete à pessoa que “puxa” ou “pula” uma perna. Dessa maneira, quando lemos em Êxodo 12.21 que o povo deveria “imolar a páscoa”, podemos traduzir como “imolar o coxo”. Nesse momento, lembramos de um personagem muito especial da Bíblia: Jacó. Quando retornava para sua terra natal, Jacó foi surpreendido por um anjo que lutou com ele. Em Gênesis 32.25, lemos que, quando o anjo viu que não prevalecia contra Jacó, este “tocou-lhe a juntura da coxa, e se deslocou a juntura da coxa de Jacó, enquanto lutava com ele”. Desde aquele dia, Jacó (agora Israel), passou a mancar de uma perna, tornando-se coxo. Dessa maneira, “imolar o coxo” pode ser interpretado como “imolar Jacó”, “sacrificar Jacó”. Mas o cordeiro sacrificado na páscoa deveria ser perfeito, sem mancha nem mácula.

Como seria sacrificar o coxo?

Nesse momento, temos uma mudança radical de perspectiva, pois, no Antigo Testamento, o coxo era uma pessoa amaldiçoada e rejeitada, e nenhum animal coxo poderia ser sacrificado a Deus e nenhum coxo poderia entrar na presença de Deus. Em Levítico 21.18, por exemplo, lemos que “nenhum homem que tiver algum defeito se chegará: como homem cego, ou coxo (pisseach), ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos”.

Em Deuteronômio 15.21, lemos que se o animal a ser sacrificado tivesse algum defeito, sendo coxo (pisseach), cego ou tivesse qualquer outra deformidade, este não deveria ser entregue ao Senhor. O profeta Malaquias, por sua vez, anuncia a indignação de Deus com algumas pessoas que estavam sacrificando animais coxos, o que era inaceitável (Malaquias 1.13). Na páscoa, nenhum animal coxo ou manco poderia ser entregue a Deus.

Concluímos, portanto, que Jacó deveria ser rejeitado? Sim, o velho homem Jacó, o enganador e usurpador, deve ser deixado para trás. Jacó parece ter dado ouvido a um ensinamento divino: “Se, pois, a tua mão ou o teu pé te fizer tropeçar, corta-o, lança-o de ti; melhor te é entrar na vida aleijado, ou coxo, do que, tendo duas mãos ou dois pés, ser lançado no fogo eterno” (Mateus 18.8). Jacó foi feito coxo, pois era a sua perna que o fazia tropeçar (Jacó significa “calcanhar” ou “enganador”). Ele lançou fora aquilo que o fazia tropeçar e entrou na vida. Ele abdicou de sua desenvoltura, de sua destreza no andar e no correr, mas alcançou a aprovação de Deus.

A fim de tomar posse do sacrifício do Cordeiro da Páscoa que nos livra da morte, devemos, assim como fez Jacó, abandonar o “velho homem” e assumir uma nova postura perante o Senhor. Nesse momento, Deus irá dar nova vida ao coxo, pois ele mesmo prometeu: “então o coxo saltará como o cervo, e a língua do mudo cantará de alegria; porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo.” (Isaías 35.6). Ou como lemos em Hebreus 12.13: “e fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que é manco não se desvie, antes seja curado”. Jesus é nossa páscoa (1 Coríntios 5.7), nosso livramento da morte, poderoso para curar o coxo e levantar o caído.

Jacó foi curado no momento de sua luta com o anjo. Ele reconheceu sua condição pecadora e se humilhou na presença de Deus. Jacó, que nasceu segurando o calcanhar de seu irmão, posteriormente usurpou a bênção que pertencia a Esaú, e tentou sempre “enganar”, ou seja, “puxar a perna” dos outros, tem agora a sua perna puxada e danificada por uma ação divina. Isso o “esvaziou” de toda vaidade e o deixou preparado para receber a cura.

É interessante observar que a luta de Jacó com o anjo ocorreu no “vau de Jaboque” (Gênesis 32.22). A palavra “Jaboque” é, em hebraico, “yabboq”, que significa “brotar”. Naquele local, a causa das desventuras de Jacó brotou, tornou-se manifesta, o que facilitou sua libertação desse mal. Lá, Jacó teve seu pecado perdoado, assumiu o sacrifício do cordeiro pascal e foi liberto da morte, já que seu irmão Esaú intentava matá-lo.

Além disso, cabe observar que a palavra “yabboq” vem de “baqaq”, que significa “luta” ou “vazio”. Ou seja, nesse momento de luta, Jacó esvaziou-se de toda sua vaidade e arrogância e assumiu forma de servo, permitindo que Deus nele fizesse morada, como na passagem de Filipenses 2.5-8, que diz: “tende em vós aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus, o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.” Ao esvaziar-se na luta, Jacó jogou fora o velho homem e entregou a Deus uma nova vida, agora imaculada como o cordeiro da Páscoa.

Por fim, voltamos ao versículo de Êxodo 12.21, quando Moisés afirma que cada família deveria “imolar a páscoa”. A palavra “imolar” é, em hebraico, “shachat”, cuja raiz “shach” significa “jogar no poço”. Um dos filhos de Jacó, José, foi jogado no poço por seus próprios irmãos. Ele foi lançado à morte pelos seus próprios parentes. Mas aprouve a Deus livrá-lo da morte, assim como aconteceu com nosso Senhor, nosso Cordeiro, que foi entregue à morte, mas trazido de volta à vida pelo poder de Deus.

Todo aquele que invocar o sangue do Cordeiro da Páscoa, poderoso para tirar o pecado do mundo, será livre da morte, assim como o foram aqueles que, no Egito, obedeceram à ordem divina e tomaram posse da salvação pelo sangue do Cordeiro.

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Teólogo e Jornalista Daniel LopezDaniel Lopez é bacharel em Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo. Jornalista e doutorando em Linguística na Universidade Federal Fluminense (UFF). É também professor universitário, tradutor e diretor do programa e ministério Desvendando o Original – www.desvendandooriginal.blogspot.com

Colaborador do portal Lagoinha.com


 

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