Mulheres relatam horror vivido em cativeiros do Estado Islâmico

Por Abner Faustino
Com informações da Anistia Internacional

Mulheres relatam horror vivido em cativeiros do Estado Islâmico

Foto ilustrativa: Kurdishstruggle Kurdish PKK Guerilla via photopin

“Ele espancava meus filhos e os trancava em um quarto. Eles choravam lá dentro e eu sentava ao lado da porta e chorava. Eu implorei para que ele nos matasse”, declarou uma mulher de 42 anos da região de Sinjar, no norte do Iraque, que passou 22 meses em um cativeiro do Estado Islâmico (EI) com seus quatro filhos.

Essa história se assemelha a de outras 3.800 mulheres e crianças, que ainda estão sendo mantidas em cativeiro pelo EI. A maioria delas é de origem yazidi, uma comunidade étnico-religiosa do Curdistão. A Anistia Internacional entrevistou 18 mulheres que foram sequestradas pelo grupo radical e cobrou maior apoio às vítimas do EI.

De acordo com a organização, várias mulheres tentaram ou pensaram em suicídio e tiveram filhas e irmãs que se mataram por causa dos abusos sofridos no cativeiro. “Muitas foram estupradas, espancadas ou torturadas várias vezes e continuam a sofrer o trauma de suas experiências devastadoras”, disse Lynn Maalouf, diretora-adjunta de pesquisa no escritório regional da Anistia Internacional em Beirute.

Desde 2014, a região de Sinjar, no norte do Iraque, tem sido alvo constante do Estado Islâmico. Milhares de mulheres são sequestradas e homens e meninos forçados a se converterem ao islã; em caso de negativa, eles são brutalmente assassinados. As mulheres são ‘dadas de presente’ ou são ‘vendidas’ a combatentes do grupo radical. Geralmente, essas mulheres são trocadas entre os militantes e passam por espancamento, estupro, fome, entre outros abusos físicos. Elas ainda são forçadas a fazerem trabalhos domésticos para seus sequestradores.

Foto ilustrativa: photo credit: Debris2008 Yazidi Genocide: Iraq 2014 via photopin (license)

Foto ilustrativa: Debris2008 Yazidi Genocide: Iraq 2014 via photopin

As mulheres entrevistadas disseram que os filhos com mais de sete anos eram separados e levados para serem treinados e doutrinados para serem combatentes, enquanto as filhas de mais de sete eram vendidas como escravas sexuais.

Uma mulher de 20 anos, da cidade de Sinjar, contou à Anistia Internacional que foi “continuamente estuprada por pelo menos dez homens diferentes após ser vendida de um combatente para o outro”. Ela foi libertada em 2015 após a família pagar uma alta quantia ao sequestrador. Essa mulher conta que era forçada a tirar fotos nuas para ser vendida. Ela tentou fugir duas vezes, mas foi capturada. Como punição, ela foi presa pelos braços e pernas em uma cama e estuprada por um grupo, além de passar fome e ser espancada.

“Era muito humilhante. Estávamos aprisionadas; eles não nos alimentavam; batiam em todos nós, até nas crianças; nos vendiam, compravam e faziam o que quisessem conosco. Era como se não fôssemos humanos para eles”, disse uma jovem de apenas 16 anos, que revelou ainda ter três irmãs e uma tia sendo mantidas em cativeiro. “Estou livre agora, mas outras ainda estão vivendo esse pesadelo, e não temos dinheiro suficiente para nos sustentar e resgatar nossos parentes”.

À Anistia Seveh, de 17 anos, contou que foi estuprada e espancada diversas vezes no cativeiro, além de ver seu filho, de apenas três meses, ser espancado e passar fome periodicamente. Ela revela que tentou suicídio três vezes, mas foi impedida por outras mulheres sequestradas.

Foto ilustrativa: chrisdebruyn tie knots for good luck via photopin (license)

Foto ilustrativa: chrisdebruyn tie knots for good luck via photopin

Seveh disse que uma irmã, de 11 anos, se matou após escapar do cativeiro, pois não conseguia lidar com as consequências físicas e psicológicas do tempo de sequestro. Ela se trancou em um quarto e ateou fogo em si mesma. Ela foi levada ao hospital, mas não aguentou os ferimentos e morreu três dias depois.

Além do sofrimento, das consequências físicas e psicológicas, muitas sobreviventes precisam pagar dívidas enormes, de até dezenas de milhares de dólares norte-americanos, para quitar a libertação com os sequestradores.


 

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