Missões transculturais: por que investir em projetos internacionais se a nação vive seu pior momento?

por Mario Freitas, fundador da Missão em Apoio à Igreja Sofredora (Mais)

O Brasil vive um momento gravíssimo. A crise política dividiu a nação, de forma que até relações eclesiásticas ficaram estremecidas. Isso sem contar o elemento econômico, que já vem assolando o país desde o fim de 2014. Orações e ações práticas pelo bem nacional são vitais num momento como esse.

Igrejas foram inegavelmente afetadas em sua arrecadação financeira. Famílias inteiras tiveram suas finanças comprometidas, de forma que a participação por meio de dízimos e ofertas caiu em quase todos os contextos. Se missões já era um compromisso assumido somente por alguns, em tempos de incerteza financeira as garantias para investimentos externos são ainda menores. Na verdade, há certa lógica nesse raciocínio: por que investir em projetos internacionais se a nação vive seu pior momento? Por que sequer orar por isso, se nossa prioridade de oração deveria ser doméstica?

Como organização missionária, somos diretamente atingidos por esse tipo de indagação. E preciso externar que nós também questionamos. Mas não podemos deixar de cumprir o que Deus tem nos chamado para fazer. Continuamos crendo na globalidade da missão da Igreja. Portanto, seguem dois pensamentos sobre a necessidade global em meio ao caos nacional: o elemento simultâneo da missão e o elemento vocacional da missão. Até que ponto devemos continuar pensando nisso?


Elemento simultâneo da missão


missões

(Foto: Pixabay)

O clássico versículo registrado em Atos 1:8, afirma: “Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da Terra.” A Grande Comissão deve ser cumprida com ênfase global. Isso significa que a responsabilidade local deve ser balanceada no que tange ao esforço global. Hoje em dia, alguns já usam a terminologia igreja “glocal”. Uma igreja sólida age de forma transformadora em seu contexto local, sem deixar de preocupar-se com o que Deus deseja fazer ao redor do mundo. Também seria questionável, em termos bíblicos, que uma igreja focasse todos os seus esforços em missões transculturais mas não fosse relevante no contexto local, onde Deus a inseriu.

Nossa oração tem sido para que a igreja brasileira consiga “fazer essas sem omitir aquelas” (Mateus 23:23). Reconhecemos que o momento é difícil. Há igrejas engajadas em construções e outros projetos, e que fizeram compromissos até com bancos, os quais têm sido cumpridos com extrema dificuldade, uma vez que aqueles que doavam já não possuem a mesma condição que talvez tivessem há três ou quatro anos. Mas cremos no Deus de toda a graça. Como organização missionária, tendo como ênfase principal os campos internacionais, temos procurado orar e participar desse momento em nossa nação, inclusive tendo nos encontrado pessoalmente com autoridades e líderes do cenário atual, oferecendo apoio e orando por eles. Divulgamos e participamos integralmente de diferentes eventos, campanhas de oração e outros movimentos direcionados para a restauração do Brasil. E vamos continuar agindo dessa maneira. Aliás, por mais que nos esforcemos para nos tornar uma organização internacional, com bases em 9 países além do Brasil, e escritórios sendo abertos para captação de parceiros em outros países do ocidente, sempre nos orgulharemos de sermos uma organização gerada no Brasil e gerenciada a partir do Brasil.

Elemento vocacional da missão

Um segundo pensamento diz respeito ao elemento vocacional. Deus chama pessoas específicas para projetos específicos. O chamado da MAIS é ser essa ponte entre a igreja estável e a igreja sofredora, a igreja livre e a igreja perseguida. Onde a igreja sofre, cremos que a própria igreja deve acolher. Assim como nos engajamos em projetos internacionais e transculturais de forma mais direta – apesar de termos diferentes projetos no Brasil, como uma base missionária no sertão, uma base principal no sul do país, onde a Cidade de Refúgio está sendo construída, e a participação pontual em diversos eventos de catástrofe natural ocorridos em diversos estados como Espírito Santo, Rio de Janeiro, Alagoas e Pernambuco – cremos que Deus levanta organizações, ministérios e pessoas cujo foco principal é o Brasil. É o inexplicável elemento vocacional: Deus confere dons e ministérios aos homens, visões específicas de transformação e proclamação, e muitas vezes direciona geograficamente a execução desses projetos de vida.

Certa vez, quando servi como missionário na China, fui questionado por um grande líder denominacional sobre a razão pela qual eu escolhera a China para servir, sendo que no Brasil havia tantos desafios e oportunidades. Ele não foi desrespeitoso em nenhum momento, portanto respondi com muito cuidado. Mas minha resposta foi franca. Conhecendo sua realidade denominacional, visto que sua igreja fora plantada por missionários estrangeiros no século 19, afirmei que os missionários que vieram ao Brasil também possuíam grandes desafios na América, e que inclusive foram muito questionados, mas pela graça e providência de Deus cumpriram o chamado de Deus e vieram até nós. Por causa de sua vocação o evangelho chegou até nós. Ele se contentou com a resposta.

A verdade é que o problema do mundo é um só: a falta de Cristo. Somente a graça transformadora do evangelho pode vencer a corrupção, resolver conflitos e guerras, promover perdão e avivamento em âmbito nacional e trazer dignidade ao pobre e oprimido. E somente igrejas fortalecidas, encorajadas por outras igrejas visionárias, conseguirão cumprir esta árdua tarefa. Que Deus nos abençoe, e que o caos nos ensine que Ele jamais perdeu o controle!

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Extraído do site da Mais


 

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