Existe ajuda na literatura de autoajuda?

literatura de autoajudaO que uma pessoa busca ao ler um livro de autoajuda? É possível encontrar, efetivamente, alguma ajuda nesse tipo de literatura?

A psicóloga e doutora em Ciências da Religião Daniela Borja Bessa – autora do livro “Literatura de autoajuda cristã: em busca da felicidade ainda na Terra e não só para o céu” – explica que a autoajuda diz respeito a “textos que visam desenvolver capacidades objetivas e subjetivas”. Ela cita o autor Steve Salerno, que afirma que a autoajuda não está relacionada apenas ao “bem viver” individual, mas, também, ao aprimoramento de habilidades em benefício do outro, ao desenvolvimento do autoconhecimento e à busca, com o apoio de outras pessoas, por soluções para problemas em comum dentro de um determinado grupo (como Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos dentre outros).

Daniela Bessa chama a atenção para a crítica em torno da literatura de autoajuda e cita o autor Pedro Demo, que diz que se trata de uma leitura marcada pela ingenuidade, porque quem lê um livro dessa categoria “acredita que vai resolver o problema quase que instantaneamente”. Mas a psicóloga acredita que as críticas contra a autoajuda baseiam-se no discurso ilusório que alguns títulos podem trazer, aqueles que sustentam a impressão de que existe um alguém – no caso, o autor do livro – capaz de dar receitas sobre como vencer determinados problemas. Esse tipo de livro sustenta o que Daniela chama de “discurso da certeza”, em que sentenças imperativas parecem apontar soluções certeiras: “faça”, “seja”, “sorria”, “dê”. “Uma das críticas grandes que se faz é uma universalização da vida. É como se dissessem (os autores): ‘o que serviu pra mim, serve pra todo mundo’. Isso é um elemento negativo”, explica a psicóloga.

Daniela também alerta para o risco do tratamento exageradamente simples dado a determinadas patologias em alguns livros de autoajuda. “Você tem um texto falando assim: ‘vença a depressão em dois dias’”, exemplifica a psicóloga. Esse tipo de abordagem abre espaço para críticas à autoajuda como gênero literário. Daniela salienta, porém, que existem benefícios nesse tipo de literatura. Em sua tese de doutorado, foi realizada uma pesquisa com 768 evangélicos e descobriu-se que muitos leem livros de autoajuda na busca de solução para problemas pessoais. “Esse livro vai ocupar, de alguma maneira, um lugar que está vazio nas igrejas, ou vazio na vida das pessoas: de um bom amigo ou um bom conselheiro”, explica.

No meio cristão, mais precisamente entre líderes teológicos, conforme explica Daniela Bessa, uma resistência em relação à autoajuda surge por conta da premissa que parece implícita nesse tipo de literatura de que as pessoas têm condições de encontrar em si mesmas o poder para mudarem as próprias vidas (o que excluiria a necessidade de Deus). A psicóloga defende, entretanto, o benefício desse tipo de literatura enquanto uma alternativa às lacunas, como a ausência ou dificuldade de se comunicar problemas pessoais (para uma pessoa que não quer expor os próprios problemas, buscar ajuda em livros pode ser a alternativa mais viável).

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